HISTÓRIA DA MEDICINA: pioneiros

PIONEIROS DA MEDICINA

A melhor forma de se estudar anatomia é dissecando um cadáver. Nenhum livro, mesmo o atlas mais requintado, é tão eficaz para o aprendizado sobre o corpo humano quanto o próprio corpo humano. Infelizmente, a obtenção de um cadáver para estudo, nas escolas de medicina, tem sido cada vez mais difícil. Na década de 1970 as faculdades de medicina no Brasil não eram tão numerosas e era possível disponibilizar um cadáver para cada 3 a 5 alunos para estudo anatômico, conforme o porte da escola e o número de estudantes. As faculdades de medicina, desde então, se multiplicaram, assim como o número de vagas. Hoje vemos faculdades com apenas um cadáver para toda a turma, que é dissecado pelo professor e não pelos alunos; outras contam apenas com peças avulsas, desgastadas e malconservadas.

laboratório

Laboratótio de Anatomia

http://prof-marcosalexandre.blogspot.com.br

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Alexandria em 1681

Fundada em 331 a.C., por Alexandre o Grande, Alexandria, localizada na costa mediterrânea do Egito, era um centro econômico e cultural. Os gregos Ptolomeus, que governaram o Egito de 323 a 30 a.C., eram patronos entusiastas das artes e das ciências e foi sob Ptolomeu II que a grande biblioteca de Alexandria foi aberta no sec. III a.C. Acredita-se que ela chegou a ter quase um milhão de livros e fazia parte de um complexo maior de academias e escolas. Devido à fama das bibliotecas e ao apoio real sem precedentes, a escola médica de Alexandria cresceu rapidamente para se tornar o Centro médico da era Helênica.

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Ptolomeu II

Os primeiros estudos anatômicos ocidentais foram realizados em 300 a.C. por Erasístrato (310 – 250 a.C.) e Herófilo (335 – 280 a.C.), médicos gregos que fundaram a escola médica de Alexandria. Foram os primeiros a realizarem dissecações humanas de forma sistemática. Eles chegaram a Alexandria em 290 a.C. e já possuíam grande reputação por seus conhecimentos em anatomia humana.

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Alexandre, o grande.

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=8356225

Erasístrato nasceu na ilha de Ceos, e foi designado pai da fisiologia; realizou uma das primeiras descrições de partes profundas do cérebro, do cerebelo e dos ventrículos cerebrais; descreveu as válvulas do coração, a tricúspide e o sigmoide; também concluiu que o coração não era o centro das sensações, mas que funcionava como uma bomba. Foi um dos primeiros a distinguir veias e artérias e acreditava que as artérias eram repletas de ar e transportavam o “fluido animal” do coração. Esta sugestão contrariava a crença da época nos humores corporais de Hipócrates 6 (Cós, 460–Tessália, 377 a.C.).

Hippocrates (1)

Hipócrates

Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=164808

Herófilo, nascido na Calcedônia, Ásia Menor, é conhecido como o primeiro anatomista da história. Ele dissecava cadáveres dos condenados à morte; estudou o cérebro, reconhecendo este órgão como o centro do sistema nervoso e da inteligência. Dissecou e descreveu sete pares de nervos cranianos. Também distinguiu nervos de vasos sanguíneos e os nervos motores dos sensitivos. Outros objetos de estudo foram os olhos, fígado, pâncreas, as glândulas salivares, e o trato alimentar, assim como os órgãos genitais. Descreveu os vasos quilíferos que são visíveis somente durante a fase de absorção digestiva devendo, portanto, ter dissecado indivíduos que haviam se alimentado pouco antes da morte5. Ele foi também um estudioso de Hipócrates e escreveu um tratado sobre o método hipocrático; escreveu três livros sobre anatomia, entre outros textos perdidos na Biblioteca de Alexandria, sendo que uma parte deles foi traduzida por Galeno (Pérgamo, c. 129 – provavelmente Sicília, ca. 217), no segundo século d.C.

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De Ecelan – Trabajo propio, CC BY-SA 3.0 es, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=16641053

Acredita-se que Herófilo tenha sido um dos fundadores do Método Científico. Ele introduziu o método experimental na medicina e considerava-o essencial para o conhecimento. Por isso, foi criticado por Galeno (Pérgamo, c. 129 – provavelmente Sicília, ca. 217), para quem o método experimental contrariava o raciocínio7. Também introduziu muitos dos termos científicos usados até hoje para descrever fenômenos anatômicos. Foi o primeiro a utilizar terminologia convencional, em vez de “nomes naturais”, utilizando termos que criou para descrever seus objetos de estudo, nomeando-os pela primeira vez; por exemplo denominou duodeno o primeiro terço do intestino delgado por medir doze dedos.

Ambos, Herófilo e Erasístrato, depois seriam acusados de vivissecção com seres humanos. Ainda que tenham realizado dissecações, algumas inclusive em público, e que seus estudos constituíssem importantes fontes de informações para gerações futuras, este tipo de pesquisa se interrompeu com sua morte e não voltaria a ser realizada com seriedade durante mais de um milênio. A partir do ano 150 A.C. a dissecação humana foi de novo proibida por razões éticas e religiosas. O conhecimento anatômico sobre o corpo humano continuou no mundo helenístico, porém só se conhecia através das dissecações em animais4.

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Galeno

Pierre-Roch Vigneron (1789–1872) Domínio público. https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4672199

No século II D.C., Galeno dissecou quase tudo, macacos e porcos, aplicando depois os resultados obtidos na anatomia humana, por vezes corretamente, porém, como nunca dissecou o corpo humano, sua anatomia está eivada de erros inevitáveis devido à impossibilidade de confirmar os achados em cadáveres. Entretanto, seus ensinamentos, a semelhança de Aristóteles na Filosofia, perduraram até o Renascimento.

Com o tempo, as técnicas de representação foram se tornando cada vez mais apuradas. Percebe-se claramente a preocupação didática e descritiva dos ilustradores antigos, ao contrário das reproduções artísticas, motivadas pela estética e expressividade. Os ilustradores preocupam-se em contar uma história e descrever a realidade. Inserem cortes e posições variadas em perspectiva apurada e anotações explicativas. O objetivo da ilustração científica é dissecar a realidade da natureza.

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BIBLIOGRAFIA

  1. Grande História Universal: o princípio da civilização. Ed. Folio S.A. Barcelona, 2006.
  2. Biblioteca Egito: A história cotidiana às margens do Nilo. Ed. Folio S.A. Barcelona, 2007
  3. Livros dos Mortos. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Livro_dos_Mortos; acessado em 06 de agosto de 2016, 15 horas e cinquenta minutos.
  4. História da Anatomia. Aula de Anatomia; disponível em http://www.auladeanatomia.com/historia/historia.htm, acessada em 28/08/2016, 21 h. e 20 min
  5. LETTI, N. Anatomia, sua história e seu instrumento de trabalho. Revista brasileira de otorrinolaringologia; 2842 – Vol. 38, pg. 82 a 88. Edição 1, Janeiro – Abril de 1972.
  6. Herasístrato. Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Eras%C3%ADstrato; acessada em 28/08/2016, 21 h. e 30 min.
  7. Herófilo. Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Her%C3%B3filo; acessada em 28/08/2016, 21 h. e 40 min.
  8. FAULKNER, L. A. Herophilus and Erasistratus: The ‘Butchers’ of Alexandria. History in an hour, disponível em http://www.historyinanhour.com/2012/12/17/herophilus-and-erasistratus/, acessado em 29/08/2016, 20 horas e 50 min.

 

 

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